A crise sanitária provocada pela Covid-19 tem tido um forte impacto sobre a economia brasileira desde o primeiro semestre de 2020. No entanto, os efeitos não são os mesmos em todos os setores econômicos. No caso do mercado de maquininhas de cartão,  as mudanças nos hábitos dos consumidores, entre outros fatores, têm levado a um aumento da demanda pelo produto.

Pelo menos, é isso que indicam os números do setor relativos a 2020. Segundo dados da Anatel compilados pela empresa de consultoria em comunicação Teleco, entre 2019 e 2020, aumentou em 18% o número de terminais ativos de comunicação M2M (máquina a máquina), em que predominam justamente as maquininhas de cartão. Mas o que, exatamente, explica esse crescimento?

Serviços de delivery ganham fôlego com a pandemia

Assim como ocorre em outros países, os impactos da pandemia sobre a economia brasileira têm sido sentidos de forma diferente, ao longo do tempo, em cada setor.

Com as diversas medidas de distanciamento social, entre outros cuidados específicos de ordem individual e social, os hábitos de grande parte dos consumidores foram alterados.

Vendedor com pacote para entrega, maquininha de cartão e notebook

Pagamento com máquina de cartão é alternativa durante a pandemia

Um dos principais resultados das medidas de isolamento foi a maior demanda por entrega a domicílio. Com estabelecimentos comerciais fechados durante boa parte de 2020, enquanto uma parcela expressiva dos consumidores permanecia em casa, houve um grande crescimento dos serviços de delivery em relação a 2019.

Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva para a empresa VR Benefícios, 49% dos restaurantes, mercados e outras empresas do setor de alimentação faziam delivery antes da pandemia. Depois das medidas restritivas, esse tipo de serviço já era oferecido por 81% das empresas.

49%

Setor de alimentação com delivery antes da pandemia

81%

Setor de alimentação com delivery após a pandemia

Segundo Eduardo Tude, presidente da Teleco, esse fenômeno teve impacto significativo sobre o mercado de maquininhas de cartão, “o aumento da base de máquinas de cartão de crédito está relacionado com o aumento de empresas que oferecem este serviço e o crescimento do delivery durante a pandemia”.

Pagamentos com cartão aumentaram 17,3% em um ano

O aumento do uso das maquininhas também pode ser aferido pelo maior uso de cartões de débito e crédito no país. Segundo números da Abecs (Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços), divulgados em abril de 2021, o valor total transacionado no setor de cartões no Brasil aumentou 17,3% entre o primeiro trimestre de 2020 e os três primeiros meses de 2021.

Apesar de esse valor também refletir as compras feitas com cartão à distância (por exemplo, compras online), fica claro também o efeito da maior demanda por maquininhas de pagamentos. Segundo a mesma pesquisa da Abecs, por exemplo, os pagamentos presenciais com cartão aumentaram 13,1% entre o primeiro trimestre de 2021 e o mesmo período do ano passado.

13,1%↑

Crescimento dos pagamentos presenciais com cartão
(1o trimestre de 2020 x 2021)

372%↑

Crescimento dos pagamentos por aproximação
(1o trimestre de 2020 x 2021)

Fonte: Abecs/Teleco

Além disso, os pagamentos por aproximação, sem que o dono do cartão precise encostá-lo na maquininha, aumentaram 372% na mesma base de comparação.

Ou seja, houve não só um aumento da demanda por transações em maquininhas, mas também um maior uso dessa tecnologia relativamente nova no mercado brasileiro.

No contexto da pandemia, esse dado pode refletir uma mudança de hábito de consumidores e de medidas de segurança por parte de lojistas, funcionários e entregadores.

Crise e recuperação com o auxílio emergencial

A evolução dos números mostra diversas fases e reações dos agentes no mercado doméstico, entre o pessimismo e a esperança (com momentos de alívio), desde que as primeiras medidas de restrição foram implementadas no país. Isso, claro, também teve reflexos no mercado de maquininhas.

O fechamento do varejo no final do primeiro semestre de 2020 provocou um efeito imediato sobre o valor transacionado em cartões, como mostram os números da Abecs. Em abril do ano passado, chegou a ser registrada uma queda de 15,1%, considerando a variação anual.

Entregador entregando caixa com máscara

Delivery cresceu durante a pandemia

Como resposta a isso, as empresas de maquininhas desenvolveram diversas ações de apoio aos seus clientes, como isenção de taxas e antecipação de recebíveis. Além disso, empresas como a Rede passaram a disponibilizar maquininhas extra para seus clientes, como forma de estimular a adoção de sistemas de delivery.

Os bons números apresentados pelo mercado de maquininhas em 2020 refletem a reversão do cenário a partir de abril de 2020, no Brasil, no que diz respeito ao nível de consumo. Um fator que certamente colaborou para isso foi o início do pagamento do auxílio emergencial naquele mês.

Logo do Auxílio Emergencial na tela de celular ao lado de cédulas de reais

Auxilio emergencial reanimou a economia

Entre os efeitos dessa injeção de recursos na economia, esteve justamente a recuperação do setor de alimentação, conforme aponta a pesquisa da Abecs.

Além disso, ao longo do segundo semestre de 2020, houve um longo período de queda do número de casos de Covid-19, o que levou a uma flexibilização das restrições e a uma recuperação parcial da economia. Isso levou inclusive a uma queda na inadimplência do cartão de crédito, segundo a Abecs, o que contribuiu para o setor de meios de pagamentos.

O futuro pós-pandemia

Para o mercado de maquininhas, uma provável superação da crise sanitária entre o final de 2021 e o início de 2022 deverá ter efeitos em direções opostas.

Ao mesmo tempo em que poderá haver um refluxo do delivery com o fim das restrições, é possível que grande parte dos estabelecimentos mantenha esse serviço ativo, caso tenha tido bons resultados durante o período pandêmico.

Eduardo Tule, da Teleco

O uso de maquininhas cresceu durante a pandemia, e isso veio para ficar.

– Eduardo Tude, presidente da Teleco

Já uma recuperação do emprego e da renda poderá estimular mais o consumo, mesmo que as operações a crédito nas maquininhas passem a crescer em um ritmo menos intenso, por exemplo.

Como diz Eduardo Tude, da Teleco: “Entendo que o uso de maquininhas vai continuar se expandindo, embora em ritmo mais lento. Com a pandemia, cresceu o uso deste meio de pagamento, e isso veio para ficar.”

O certo é que muitos dos novos hábitos dos consumidores durante a pandemia vieram para ficar, e os efeitos desse período serão sentidos por muito tempo.

Por enquanto, mesmo com a crescente competição de formas de pagamento digital, as mudanças aceleradas pela pandemia indicam um cenário favorável para as maquininhas nos próximos anos.